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suas mãos

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hoje, e todos os dias que se seguem tem o mesmo sabor, uma nostalgia, um sentimento que nomeio como saudade, mas tenho por mim que ele tem outros tantos nomes, falta. naquele dia de um tempo lá atrás nossas mãos dançaram juntas, brancas de farinha, a amassar a massa .conversamos sobre algumas coisas, talvez sobre o tempo,sobre encontros, sobre o almoço de amanhã? conversamos coisas pequenas dos dias, de como a massa deveria ficar, sobre meus irmãos, a que hora os outros chegariam,esticamos a massa juntos, os braços na mesma dança, o mesmo movimento, a massa macia nas palmas das nossas mãos. mãe, suas mãos são tão macias, são os melhores ingredientes, de qualquer pão, para qualquer massa. hoje vou fazer pão, e certeza, suas mãos estarão com as  minhas, como sempre, mãe. Foto: Paulo Rossi 

mentiras

 a minha língua desliza por sua pele, sentindo todos os gostos, o sal do suor dentro de todos os poros,a carne dentro das unhas, desenho cada curva de seu corpo com a ponta dos dedos,mordo cada pedaço de sua pele, debaixo da minha. sinto uma fome imensa quando estou com você e todos os meus segredos inventados são esquecidos. sua boca engole todas as minhas palavras, mordo sua língua com uma fome que  desconhecia, seus dentes se vingam na minha pele. ouço os sons do seu corpo que dança junto ao meu. você sempre me achou doida, mas eu sei que gosta disso, de saber que faço o que me pede, que faço as coisas que não me pede também, que gosto de testar o seu desejo, que é vulnerável ao meu. ficar nua para você é natural, me despir de cada peça é uma declaração de desapego ás roupas. te abraço com todo o meu amor. te convido a morar no meu corpo. Morda as minhas palavras e engula os meus gritos, esquecerei de propósito todas as suas mentiras, e as minhas também.

Corações em paralelo

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 eu sempre acreditei que seríamos nós dois juntos contra o resto do mundo, sempre tive essa sensação de pertencimento a outro corpo, de esquecer  minha própria voz. Eu existia dentro de toda essa certeza e não conseguia imaginar que poderia haver outro mundo que não fosse aquele que inventei com você, eu sempre acreditei nisso. Se você dissesse algo que eu não gostava, isso não era um problema, eu me adaptaria ao seu mundo, a sua voz comandava o meu corpo. Toda a extensão do meu pensamento era uma tentativa de se conectar ao seu. Você era a metade do meu corpo inteiro, o seu desejo dominava minha vontade e eu obedecia. Mesmo que você diga que precisa respirar a vida sem mim, não posso acreditar que seu corpo viva sem o meu, somos dois em um só, não diga de novo que estou delirando, bem sei que não, somos dois num corpo só, você me disse isso, lembra? Nunca esqueci. Não quero respirar sem o seu corpo, porque o meu está com você, porque um não vive sem o outro. Fotografia: Paulo...

música

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estou procurando a música certa para escrever para você, porque só consigo escrever ouvindo música. Eu não quero mais esperar respostas suas, não mais. Naquela noite você me abraçou, não tive forças para resistir, mas você continuou,suas mãos estavam livres na minha pele, pedi, pare. Você continuou. Meus pensamentos no dia em que você disse que precisava contar aquilo que te afligia eram densos, turvos. Suas mãos continuavam, eu me rendia. Éramos nós dois e a escuridão, o silêncio lá fora e o medo dentro de mim. Você dizia, preciso te contar uma coisa, me ouve. Tinha uma noite inteira lá fora, sua mão a continuar o caminho pelas minhas pernas, não aguento mais esse segredo, quero que você saiba agora, me deixe falar...Senti seus dedos me agarrarem, seus dentes marcando a pele, você sabe o que eu sinto, não sabe? Porque sempre estamos juntos, conversando, você ria para mim, eu vi, várias vezes. Fui engolida por uma culpa imensa, porque, sim, eu gostava de verdade de você e por isso conf...

piruetas e rodeios

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 A primeira coisa a se fazer é acertar o compasso dos passos, o equilíbrio das pernas e lembrar da coreografia. Isso é quase essencial, digamos que é um detalhe muito importante ou talvez nem tão importante assim... digamos que o importante é se jogar e seja o que Deus quiser, é isso, dança é isso, uma leveza do corpo e da alma. Comecei essa vida de dança quando me apaixonei por um dançarino, homem lindo de pele morena, um verdadeiro deus. Ele era o professor eu a aluna mais atrapalhada, aquela que nunca sabia a diferença entre a esquerda e direita,  que se perdia a cada rodada e pisava sempre em todos os pés disponíveis, mesmo assim nunca desisti de aprender, mesmo porque não era bem a dança que me fascinava...Bem,a minha única intenção era ficar perto do professor, sentir o seu cheiro, encostar meu rosto no dele, sua respiração perto da minha. Mas antes de tudo isso, havia as pernas e os pés, os meus que nunca se casavam com os dele, claro. Eu me mordia de ciúmes daquelas be...

espera

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  num dia 07 de outubro de um ano qualquer nos encontramos em algum lugar onde havia outras pessoas rindo e conversando , uma tarde de sol lá fora  e uma ansiedade engolindo meu corpo inteiro. Eu lembro daquele dia porque enquanto te esperava tentando acalmar meu corpo prestei atenção em conversas alheias e nos detalhes de cada coisa. Você quer me ver? Sim, eu disse, gaguejei alguma coisa e você respondeu, sim, tudo bem, estarei lá. Imaginei que enquanto te esperava, alguma coisa terrível poderia acontecer porque não era possível eu ter tanta sorte nesse mundo e isso realmente não me ajudou muito, confesso, porque fiquei ainda mais nervoso. Você chegou com um sorriso se desculpando pelos minutos de atraso e eu não ouvi nada, nada mais importava, nada. Eu ainda volto nesse lugar, mas já não presto atenção nas conversas e já  há algum tempo a ansiedade já não mora no meu corpo, agora  só há saudade, imensa, inteira. Fotografia: Paulo Rossi 

a última palavra

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A primeira palavra surgiu numa noite de insônia, acompanhada de uma  febre incensante causada por um arrependimento tardio. Era a voz dela sufocada tentando dizer palavras que ele não ouvia. As mãos dela a sentir a pele dele, tão sua. A segunda palavra veio na curva da nuca, a descer pelo labirinto da garganta, ela a escreveu na parede mesmo sabendo que não a esqueceria. Ele contava seus desejos  mais sombrios, ela o chamava. Confie em mim. Ela bebia todos os segredos que ele contava, comia todas as vontades que ele confessava. Confie em mim. A terceira palavra veio no dia em que ela se sentiu inteira no mundo dele, sem saída. Sentiu falta da liberdade, sentiu falta do seu próprio corpo. Queria ser livre de novo, mas como se libertar de algo que te alimenta? A última palavra veio no dia em que ele encontrou a cama vazia. Solidão. Fotografia: Paulo Rossi