a última palavra


A primeira palavra surgiu numa noite de insônia, acompanhada de uma  febre incensante causada por um arrependimento tardio. Era a voz dela sufocada tentando dizer palavras que ele não ouvia. As mãos dela a sentir a pele dele, tão sua. A segunda palavra veio na curva da nuca, a descer pelo labirinto da garganta, ela a escreveu na parede mesmo sabendo que não a esqueceria. Ele contava seus desejos  mais sombrios, ela o chamava. Confie em mim. Ela bebia todos os segredos que ele contava, comia todas as vontades que ele confessava. Confie em mim. A terceira palavra veio no dia em que ela se sentiu inteira no mundo dele, sem saída. Sentiu falta da liberdade, sentiu falta do seu próprio corpo. Queria ser livre de novo, mas como se libertar de algo que te alimenta?
A última palavra veio no dia em que ele encontrou a cama vazia.
Solidão.


Fotografia: Paulo Rossi 

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