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Mostrando postagens de fevereiro, 2023

música

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estou procurando a música certa para escrever para você, porque só consigo escrever ouvindo música. Eu não quero mais esperar respostas suas, não mais. Naquela noite você me abraçou, não tive forças para resistir, mas você continuou,suas mãos estavam livres na minha pele, pedi, pare. Você continuou. Meus pensamentos no dia em que você disse que precisava contar aquilo que te afligia eram densos, turvos. Suas mãos continuavam, eu me rendia. Éramos nós dois e a escuridão, o silêncio lá fora e o medo dentro de mim. Você dizia, preciso te contar uma coisa, me ouve. Tinha uma noite inteira lá fora, sua mão a continuar o caminho pelas minhas pernas, não aguento mais esse segredo, quero que você saiba agora, me deixe falar...Senti seus dedos me agarrarem, seus dentes marcando a pele, você sabe o que eu sinto, não sabe? Porque sempre estamos juntos, conversando, você ria para mim, eu vi, várias vezes. Fui engolida por uma culpa imensa, porque, sim, eu gostava de verdade de você e por isso conf...

piruetas e rodeios

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 A primeira coisa a se fazer é acertar o compasso dos passos, o equilíbrio das pernas e lembrar da coreografia. Isso é quase essencial, digamos que é um detalhe muito importante ou talvez nem tão importante assim... digamos que o importante é se jogar e seja o que Deus quiser, é isso, dança é isso, uma leveza do corpo e da alma. Comecei essa vida de dança quando me apaixonei por um dançarino, homem lindo de pele morena, um verdadeiro deus. Ele era o professor eu a aluna mais atrapalhada, aquela que nunca sabia a diferença entre a esquerda e direita,  que se perdia a cada rodada e pisava sempre em todos os pés disponíveis, mesmo assim nunca desisti de aprender, mesmo porque não era bem a dança que me fascinava...Bem,a minha única intenção era ficar perto do professor, sentir o seu cheiro, encostar meu rosto no dele, sua respiração perto da minha. Mas antes de tudo isso, havia as pernas e os pés, os meus que nunca se casavam com os dele, claro. Eu me mordia de ciúmes daquelas be...

espera

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  num dia 07 de outubro de um ano qualquer nos encontramos em algum lugar onde havia outras pessoas rindo e conversando , uma tarde de sol lá fora  e uma ansiedade engolindo meu corpo inteiro. Eu lembro daquele dia porque enquanto te esperava tentando acalmar meu corpo prestei atenção em conversas alheias e nos detalhes de cada coisa. Você quer me ver? Sim, eu disse, gaguejei alguma coisa e você respondeu, sim, tudo bem, estarei lá. Imaginei que enquanto te esperava, alguma coisa terrível poderia acontecer porque não era possível eu ter tanta sorte nesse mundo e isso realmente não me ajudou muito, confesso, porque fiquei ainda mais nervoso. Você chegou com um sorriso se desculpando pelos minutos de atraso e eu não ouvi nada, nada mais importava, nada. Eu ainda volto nesse lugar, mas já não presto atenção nas conversas e já  há algum tempo a ansiedade já não mora no meu corpo, agora  só há saudade, imensa, inteira. Fotografia: Paulo Rossi 

a última palavra

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A primeira palavra surgiu numa noite de insônia, acompanhada de uma  febre incensante causada por um arrependimento tardio. Era a voz dela sufocada tentando dizer palavras que ele não ouvia. As mãos dela a sentir a pele dele, tão sua. A segunda palavra veio na curva da nuca, a descer pelo labirinto da garganta, ela a escreveu na parede mesmo sabendo que não a esqueceria. Ele contava seus desejos  mais sombrios, ela o chamava. Confie em mim. Ela bebia todos os segredos que ele contava, comia todas as vontades que ele confessava. Confie em mim. A terceira palavra veio no dia em que ela se sentiu inteira no mundo dele, sem saída. Sentiu falta da liberdade, sentiu falta do seu próprio corpo. Queria ser livre de novo, mas como se libertar de algo que te alimenta? A última palavra veio no dia em que ele encontrou a cama vazia. Solidão. Fotografia: Paulo Rossi 

naquela noite

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havia um silêncio dentro daquela casa, no espaço em que costumávamos conversar debaixo das sombras das paredes cruas, existia ali todo um mistério, uma vontade de pedir para você ficar, mas eu sempre soube que seu mundo não era o mesmo que o meu, nunca foi. naquele outono de vento forte corremos na praia, debaixo da escuridão da noite, você me falava palavras que eu não entendia, mas estávamos felizes, você e eu, os dois, eu sentia isso. Ou será que não? Será que inventei toda aquela liberdade? Aquelas frases soltas que se perdiam enquanto corríamos feito crianças, os pés descalços na areia. Eu inventei aquela noite? Sim, eu devo ter inventado. Lembro do seu rosto perto do meu, a sua voz perto da minha e ela me disse, vou embora. Não havia vento que as levasse, só um silêncio dentro daquela casa. Vou me embora. Naquela noite em que corríamos feito duas crianças, eu não queria entender o que você dizia.  fotografia: Paulo Rossi