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Mostrando postagens de maio, 2019

sorriso

todos os dias esqueço o seu rosto. Exatamente todos os dias ele deixa de existir na minha memória e isso me deixa um tanto preocupada. A memória tem feito dessas brincadeiras ultimamente, então comecei a escrever pequenas crônicas, como para colar as lembranças no papel. Procurei por fotos antigas e vi rostos de pessoas que não conheço mais, que nunca mais encontrei, mas estamos juntos, sorrindo e agora me pergunto quem são essas pessoas, se éramos mesmo muito amigos ou apenas conhecidos. Há um rosto entre todos que se parece muito com o seu, estamos juntos, felizes, jovens. Já nos conhecíamos desde aquele ano? Não me lembro... Hoje você veio me ver e por enquanto seu rosto ainda está perto do meu,  sua voz está dizendo coisas de um tempo que não sei qual é, tenta me levar para outros dias e seu sorriso me agrada tanto...Mas eu sei, seu rosto e tudo que pertence a ele, desaparecerão. E isso é terrível...

Severina

Quando Severina nasceu eram só palavras, eu sabia onde cada uma ficava, como elas nasciam a cada música que eu ouvia. Severina nasceu com todas as palavras dentro dela. O texto era pequeno, cabia na palma da mão. Era a  Princesa Severina e o Rei Sol, a menina que com a imaginação de criança nascida no sertão tentava fazer nascer no rosto da mãe sofrida um sorriso, então ela inventou o rei sol, que só sabia desenhar sombras na terra seca e nunca nunca deixava a chuva cair. Severina inventou uma música que só ela sabia dançar. Um belo dia, a mãe a viu brincando sozinha e...será que ela sorriu ao ouvir a brincadeira da menina? Eu mexi tantas vezes no texto que toda a essência que existia nele se escoou, e por mais que eu o deixe descansar, eu não consigo vê-lo com os mesmos olhos de antes...Severina nasceu sem imagem, nunca a desenhei e por mais que tentasse, ainda não existia...Severina voltou a dormir e, sinceramente, não sei se vou conseguir fazê-la acordar. Mas ela sempre será a...

na Paris

Todos os dias passo perto da Torre Eiffel. Quase a furar o céu eu a ignorava completamente, coisa de adulto que tem a cabeça cheia de pensamento e não presta atenção nas torres que existem no meio do caminho. Mas foi preciso  duas crianças a enxergarem ali, plantada em plena construção civil, descansando no seu final de semana. Assim que passamos por ela, o irmãozinho alegre por ter feito a descoberta primeiro que a irmã apontou o dedo para fora da janela do ônibus e gritou: a Torre Eiffel! Onde? Onde? Eu também queria vê-la.  Então a irmã explicou uma coisa muito importante para o pequeno: "A Torre Eiffel só fica na Paris, não é mamãe?", isso não era muito importante para ele, que continuava a gritar alegre: a Torre Eiffel, a Torre Eiffel! Sim,  agora posso afirmar : todos os dias eu passo pela Torre Eiffel.

promessas

meus pés ainda estavam molhados quando recebi a notícia da sua morte.Meus pés ainda estavam encharcados quando soube que as pessoas  deixaram recados por todos os cantos onde você poderia estar. Minhas mãos seguraram o segredo das palavras que você me disse antes de ir embora, me fez prometer que nunca revelaria a sua fuga. Eu guardei  suas lágrimas e confidências, seu amor que segundo você ninguém entenderia, mas eu te entendia e mesmo assim você foi embora. Minha pele  estava molhada mesmo depois do seu abraço e da promessa que tudo ficaria bem, que ficaria curado e que seus pais ficariam orgulhosos de você. Meu corpo inteiro chorou quando o ônibus partiu. Depois daquela chuva, nunca mais acreditei em promessas.